Relatório Anual 2016

DESTAQUES DO SETOR BANCÁRIO 2016

Patrimônio líquido do setor bancário (R$ bilhões)
Patrimônio líquido  do setor bancário

Lucro líquido do setor bancário (R$ bilhões)
Lucro líquido  do setor bancário

Retorno sobre patrimônio líquido do setor bancário (%)
Retorno sobre patrimônio líquido do setor bancário

Operações de crédito
(R$ trilhões)
Operações de crédito

Transações com cartões de crédito e débito (bilhões)
Transações com cartões de crédito e débito

Valor das transações com cartões de crédito e débito
(R$ bilhões)
Valor das transações com cartões de crédito e débito

Boletos eletrônicos acumulados no DDA (milhões)
Boletos eletrônicos acumulados no DDA

Consumidores com relacionamentos ativos no sistema (milhões)
Consumidores com relacionamentos ativos no sistema

Investimento em tecnologia
(R$ bilhões)
Investimento em tecnologia

Transações em canais digitais (bilhões)
Internet banking
Internet banking

Mobile banking
Mobile banking

CENÁRIO ECONÔMICO

Apesar de o ano de 2016 ter sido marcado por incertezas e instabilidades, tanto no cenário externo como interno, há um consenso em torno da volta do crescimento da economia em 2017.

Em relação ao Brasil, grande parte das expectativas negativas em relação ao nível de atividade econômica e ao desequilíbrio fiscal do País em 2016 se confirmou e a economia teve seu segundo ano consecutivo de recessão.

Entretanto, com a transição política e nova orientação na gestão da economia, observou-se melhora significativa e imediata nas principais variáveis financeiras.

Os juros de longo prazo caíram. Os credit default swaps (CDS), que refletem o risco do Brasil percebido pelos investidores externos, mantiveram-se em níveis bem inferiores quando comparados a 2015. A Bolsa de Valores recuperou-se, com o índice Bovespa refletindo um dos melhores momentos dos últimos anos. A taxa de câmbio, apesar da volatilidade causada por fatores da situação internacional e da conjuntura política nacional, apresentou valorização em relação ao nível do fim do ano passado.

Esse cenário de recuperação não se limitou apenas às variáveis financeiras. Os índices de confiança mostraram sensível melhora tanto entre empresários como consumidores.

Esses aspectos refletiram, sem dúvida, a percepção da capacidade política do governo de galvanizar maiorias legislativas para aprovar as reformas de que o País necessita.

A perspectiva de crescimento sustentou se concretamente nas ações do governo e do Banco Central no enfrentamento de problemas que estão na origem da recessão: o forte desequilíbrio nas contas públicas, que gerou aumento de cerca de 18 pontos do Produto Interno Bruto (PIB) da dívida pública em três anos; e o recrudescimento inflacionário que, após seis anos de descumprimento da meta, elevou a inflação a dois dígitos e desancorou as expectativas.

Nesse sentido, o novo governo tomou providências na direção correta e fez aprovar a emenda constitucional que limita o crescimento dos gastos públicos.

Entretanto, apesar de o teto para os gastos ser medida urgente e necessária, é insuficiente para garantir a racionalidade da despesa pública. O governo mostrou ter consciência disso ao enviar ao Congresso Nacional proposta de reforma da Previdência capaz de enfrentar a pressão gerada pelo aumento da expectativa de vida, eliminar pontos de irracionalidade no sistema atual e modificar obrigações insustentáveis que ameaçam inviabilizar o pagamento dos benefícios no futuro.

Sabe-se que inflação baixa e pouco volátil; disciplina fiscal, que permita uma dívida pública bruta sustentável com tributação de qualidade e tamanho compatíveis com os de nossos competidores; e regime cambial flexível, que absorva choques externos por meio dos sistemas de preços e de rendas, minimizando os impactos no emprego e no produto, são condições necessárias muito importantes, embora não o bastante, para o crescimento sustentável.

O crescimento da produtividade no setor agrícola precisa se estender à indústria e aos serviços. Para isso, é vital elevar a taxa de investimentos a fim de ampliar o estoque de capital por trabalhador e introduzir técnicas mais eficientes de produção.

Para ampliar o investimento de forma sustentada, sem gerar desequilíbrios externos, é preciso aumentar a taxa de poupança doméstica e, principalmente, a poupança pública.

É preciso também aumentar a qualificação de nossos trabalhadores, o outro grande motor do crescimento da produtividade. O acesso à educação de qualidade é fundamental não só para a elevação da produtividade, mas também para garantir maior igualdade de oportunidades e melhor distribuição de renda.

O Brasil tem diante de si, portanto, importantes desafios para além do equilíbrio macroeconômico e necessita promover reformas estruturais e microeconômicas que estimulem o investimento, a poupança e a produtividade.

Crédito

A retração da demanda por crédito em 2016 reflete diretamente três aspectos que evoluíram de forma negativa no ano:

  • queda da atividade econômica, que ainda pode ser segmentada no declínio do consumo e dos investimentos;
  • processo de desalavancagem de famílias e empresas, que exigiu a redução do endividamento e do comprometimento da renda e a quitação de empréstimos, em razão das incertezas, da piora do quadro fiscal e da elevação das taxas de juros entre 2013 e 2016;
  • intensa deterioração da confiança dos agentes em razão de um conjunto de fatores econômicos e políticos, que contaminou diretamente as expectativas futuras para a economia.

Esses três determinantes não atuam de forma independente, havendo uma inter-relação que implicou uma espiral desfavorável para o mercado de crédito para pessoas físicas (PF) e pessoas jurídicas (PJ) em 2016, o que prejudicou também a propensão à oferta de recursos pelas instituições financeiras.

A relevância da retração do consumo e dos investimentos pode ser sintetizada em alguns comparativos.

Enquanto o saldo de crédito PF direcionado cresceu 6,3% no ano, o saldo PF livre – mais ligado ao consumo – ficou praticamente estável (+0,5%). Nesse segmento, as piores quedas vieram das linhas para aquisição de veículos (-10,9%), outros bens (-9,0%) e linhas com menor qualidade de garantias, como o crédito pessoal não consignado (-1%).

Na carteira PJ, o saldo livre também caiu mais que o direcionado (-10,2% x -8,8%), com o primeiro sendo puxado pelas linhas para desconto de cheques (-29,3%), antecipação de recebíveis (-17,3%) e capital de giro (-12,3%) – ligadas à atividade comercial e industrial – e o saldo direcionado puxado pela retração da carteira com recursos do BNDES (-12,8%), mais associada aos investimentos.

Em termos prospectivos, o componente de confiança de famílias e empresários é o determinante que tem mostrado maior reversão e evolução positiva, com potencial de colaborar para gradual melhora da tomada por crédito em virtude das expectativas dos agentes, especialmente com diminuição da incerteza política após a definição da nova equipe econômica no segundo semestre de 2016.

No que tange ao segmento de crédito rural, no ano-safra 2015/2016, segundo dados do Bacen, o número total de operações contratadas foi de 2,33 milhões, ante o contingente de 2,60 milhões na safra anterior.

Apesar da tendência de redução no número de contratações, os volumes financeiros financiados cresceram. Na safra 2014/2015, o montante foi de R$ 156,1 bilhões, enquanto na safra 2015/2016, foi de R$ 165,8 bilhões. A grande parte destina-se a operações de custeio (61%) e de investimento (22%).

Na composição das fontes de recursos do crédito rural, cabe destacar que a partir da safra 2015/2016 passou a vigorar o direcionamento dos recursos captados pela emissão de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) para o financiamento da agricultura. Foram captados com esses títulos R$ 13,4 bilhões ou 8,1% do total, com tendência de crescimento na participação para os próximos períodos.

A maior parcela dos volumes financiados (R$ 54 bilhões ou 32,7% do total) ainda provém dos recursos obrigatórios (RO), com taxas fixas estabelecidas para o financiamento.

O saldo total da carteira de crédito rural em dezembro de 2016 era de R$ 241,6 bilhões, ante R$ 231,1 bilhões em dezembro de 2015.


Juros e spread

Em 2016, juros e spreads permaneceram em alta, o que refletiu as incertezas do quadro econômico e político, a inflação ainda em patamar elevado e os altos níveis de inadimplência decorrentes da forte retração da atividade econômica.

A taxa média de juros das operações de crédito (recursos livres e direcionados) atingiu 32,2% ao ano em dezembro de 2016, elevação de 2,5 p.p. na comparação com dezembro do ano anterior.

Entre as modalidades, no crédito com recursos livres, a taxa de juros ficou em 52,2% ao ano (+5,0 p.p. ante dezembro de 15) e, nas contratações com pessoas físicas, em 72,4% ao ano (+8,5 p.p. ante dezembro de 2015).

Quanto aos spreads do sistema financeiro, houve aumento de 4,2 p.p., alcançando 22,7% ao ano.

Sabe-se que, para reduzir os patamares elevados das taxas de juro e dos spreads no Brasil, é preciso atacar as causas.

A retração da taxa Selic requer inflação baixa e pouco volátil, maior poupança doméstica, declínio do crédito direcionado e maior segurança jurídica.

Quanto ao spread, além desses fatores, depende da redução do custo do risco de inadimplência que responde a 56% – no Brasil, é muito mais alto do que a média de países relevantes. Isso não só ocorre porque a inadimplência é elevada, mas principalmente porque a recuperação dos créditos é muito baixa em razão da lentidão do sistema judicial.

Para o spread, outro elemento essencial é a diminuição dos custos operacionais e dos custos tributários associados à intermediação financeira, que são também maiores do que em outros segmentos da economia brasileira e no setor bancário de outros países.

O fator positivo é que o governo vem se posicionando a favor dessa agenda estrutural, de longo prazo, de atacar as causas efetivas dos elevados juros e spreads praticados no Brasil. Não é um caminho fácil nem de resultados no curto prazo, mas é o único que traz resultados consistentes quando se verifica a trajetória das economias que foram bem-sucedidas nessa tarefa.

Outro elemento de otimismo é o avanço na agenda macroeconômica, em especial em relação ao equilíbrio fiscal e a queda da inflação, que abre espaço para redução efetiva dos juros e dos spreads já no decorrer de 2017.

Taxa de inadimplência e endividamento

Em 2016, a inadimplência (acima de 90 dias) elevou-se na carteira de pessoas jurídicas – de 2,6% para 3,5% – e teve ligeiro recuo na de pessoas físicas – de 4,2% para 4,0%. A taxa total passou de 3,4% para 3,7%.

Os atrasos (de 15 a 90 dias) também aumentaram em relação a dezembro de 2015, de 4,0% para 4,5% no total, alcançando 3,1% em pessoas jurídicas (+0,5 p.p.) e 5,8% em pessoas físicas (+0,2 p.p.).

De modo geral, esses números estão diretamente associados ao declínio da atividade no comércio (-6,2%) e da produção na indústria (-6,6%) – agravada por restrições financeiras de empresas menores e com maior custo de financiamento. Ao mesmo tempo, a elevação da taxa de desemprego (de 9% para 12%), o aumento da informalidade e a queda dos rendimentos foram determinantes para elevação da inadimplência entre as famílias.

Os dados, entre outubro e dezembro de 2016, indicam leve arrefecimento da inadimplência tanto de pessoas jurídicas (-0,3%) quanto de pessoas físicas (-0,2%), motivado por aspectos como a renegociação de dívidas e desalavancagem dos tomadores, a redução parcial e gradativa das taxas de juro e spread, o estancamento da retração da atividade econômica e até mesmo o movimento de baixa contábil e a venda de carteiras em atraso pelas instituições financeiras.

Taxa de inadimplência e endividamento





Fonte: Banco Central do Brasil.

Transações com cartões



Em 2016, as transações com cartões (crédito e débito) somaram recursos de R$ 1.137 bilhão, o que representa elevação nominal de quase 7% em relação ao valor de 2015, sendo cerca de 60% com cartão de crédito.

O número de transações em 2016 chegou a 12,4 bilhões, crescimento de 8,7% na comparação com 2015.

Captação de recursos

O sistema bancário segue contando com recursos estáveis em volume suficiente para financiar suas atividades de longo prazo.

A estrutura de captação dos bancos brasileiros não sofreu grande alteração em 2016, sendo ainda predominantemente via depósitos a prazo, de poupança e à vista, que respondem por pouco mais de 30% do total captado, bem como emissão de letras financeiras, imobiliárias e do agronegócio e repasses do BNDES, com cerca de 25%, e captações no mercado aberto, com outros 25%.

Destaca-se que, em 2016, o Bacen publicou a Resolução 4.527, que veda a realização, a prorrogação ou a renovação de operações compromissadas com títulos de emissão ou aceite de instituições ligadas ou integrantes do mesmo conglomerado prudencial, para mitigar a possibilidade de contratação de operações em que o valor dos títulos utilizados como lastro tenha alta correlação com o risco de crédito da contraparte tomadora de liquidez.

A medida deverá proporcionar uma migração das operações compromissadas para outras alternativas, sobretudo os depósitos a prazo.

Observa-se ainda que a dependência de funding do exterior mantém-se baixa e não há indícios de elevação. No segundo semestre de 2016, houve redução nominal, em dólares, de 22,4% da participação das captações mantidas no exterior e de 3,8% nas captações internalizadas no Brasil.

Volume de captações (R$ bilhões)

Fonte: Banco Central do Brasil.

Margem de crédito

A margem líquida de crédito apresentou sinais de estabilidade/elevação no fim de 2016, após um período de queda, principalmente por redução no ritmo de constituição de novas provisões em relação ao início do ano.

Não obstante a redução do crédito e o aumento de provisão terem provocado queda da rentabilidade, os resultados dos testes de estresse demonstram que há perspectiva de estabilização em 2017, o que confirma a resiliência do sistema financeiro.

A recuperação da margem líquida deve se manter diante da expectativa da redução do custo de captação dos bancos (dado o comportamento de baixa esperado para a taxa Selic), da maior rentabilidade do estoque de crédito a curto e médio prazos, do arrefecimento dos níveis de inadimplência e da menor necessidade de constituição de novas provisões.

Resiliência do setor bancário – Índice de Basileia

A estabilidade financeira depende da resiliência das instituições para absorver riscos e choques. Nesse sentido, o sistema bancário apresenta sólidos índices de capitalização e baixa alavancagem, tanto em relação à regulação atual quanto às regras de Basileia III.

Em 2016, o sistema bancário prosseguiu operando com índices de capital bastante superiores aos requerimentos regulatórios, mesmo considerando o ambiente econômico adverso no ano, refletido no desempenho dos indicadores de rentabilidade.

A adoção das novas regras está confirmando para o mundo a boa situação de capital, liquidez e alavancagem dos bancos brasileiros, em comparação aos internacionais.

O Índice de Basileia (Capital Total) dos bancos brasileiros teve elevação em 2016 de 16,36% para 17,17%, o que confirma a adaptação dos bancos brasileiros aos novos requisitos prudenciais de Basileia III, cujo cronograma se estende até 2019.

No que se refere ao Capital Principal, de maior qualidade, os bancos registraram um índice de 12,74%, ante 11,77% em dezembro de 2015, também reforçando a solidez dessas instituições.



Evolução do Índice de Basileia

Fonte: Banco Central do Brasil.